Segurança Digital de Crianças e Adolescentes: Reflexões para o Serviço Social Contemporâneo


 Vivemos um momento histórico singular, onde crianças e adolescentes crescem imersos em realidades que transcendem o físico e se estendem por territórios virtuais complexos e multifacetados. Esta nova configuração social exige de nós, profissionais do Serviço Social, uma postura reflexiva e propositiva diante dos desafios emergentes da era digital. O ambiente virtual não representa apenas uma ferramenta ou espaço de lazer; constitui-se como verdadeiro território existencial onde jovens constroem identidades, estabelecem vínculos e experimentam descobertas que moldarão suas trajetórias de vida.


 A questão da proteção no universo digital revela-se particularmente complexa quando consideramos que muitos adultos responsáveis pela supervisão de crianças e adolescentes possuem familiaridade limitada com estas tecnologias. Estabelece-se, assim, uma inversão geracional do conhecimento técnico que pode gerar sentimentos de impotência e distanciamento entre familiares e jovens. Esta lacuna não representa apenas uma questão de domínio tecnológico, mas configura-se como desafio comunicacional e relacional que impacta diretamente a capacidade protetiva das redes familiares e comunitárias.


 Observamos que o cyberbullying emerge como fenômeno social, extrapolando os limites temporais e espaciais das agressões tradicionais. Diferentemente das situações de violência presencial, as agressões virtuais acompanham suas vítimas continuamente, invadindo espaços antes considerados seguros. As consequências psicológicas deste tipo de violência frequentemente se manifestam através de sintomas depressivos, ansiedade generalizada, alterações do sono e, em casos mais graves, comportamentos autolesivos.

A exposição precoce a conteúdos inadequados representa outro aspecto preocupante desta realidade digital. Materiais violentos, pornográficos ou que promovem comportamentos de risco tornam-se acessíveis com facilidade na internet, muitas vezes burlando filtros e controles parentais. Esta exposição não controlada pode distorcer percepções sobre relacionamentos interpessoais, sexualidade e formas socialmente aceitas de resolução de conflitos. Particularmente preocupante é a normalização da violência como estratégia de comunicação e a objetificação de corpos femininos desde idades muito precoces.


 O aliciamento de menores através de plataformas digitais configura-se como uma das manifestações mais graves de violação de direitos no ambiente virtual. Predadores sexuais desenvolvem estratégias sofisticadas de aproximação, identificando vulnerabilidades emocionais típicas do desenvolvimento adolescente e explorando necessidades afetivas não atendidas adequadamente em suas redes de apoio primárias. O processo de aliciamento frequentemente se desenvolve gradualmente, estabelecendo vínculos de confiança que dificultam o reconhecimento da situação de risco pelos próprios jovens envolvidos.


 Outro fenômeno crescente relaciona-se ao desenvolvimento de comportamentos aditivos relacionados ao uso de dispositivos digitais. Jovens podem desenvolver dependência de jogos online, redes sociais ou outras plataformas digitais, comprometendo significativamente sua capacidade de engajamento em atividades presenciais, desempenho acadêmico e desenvolvimento de habilidades sociais face a face. Esta problemática se agrava quando consideramos que muitas famílias utilizam dispositivos eletrônicos como estratégia de ocupação de crianças, sem estabelecer limites claros sobre tempo de uso ou tipos de conteúdo acessado.


 As vulnerabilidades sociais preexistentes tendem a se amplificar no ambiente digital, criando contextos de risco diferenciados. Famílias em situação de pobreza frequentemente dependem de dispositivos compartilhados, conexões instáveis e possuem recursos limitados e por vezes pouco conhecimento para implementar controles parentais adequados. Simultaneamente, o ambiente digital pode representar escape da realidade socioeconômica adversa, intensificando o tempo de exposição sem supervisão adequada. Crianças e adolescentes de famílias monoparentais ou com responsáveis que trabalham em jornadas extensas apresentam riscos amplificados devido à limitação de supervisão disponível.


 Contudo, identificamos também importantes fatores de proteção que podem ser fortalecidos através de nossa intervenção profissional. Famílias que mantêm comunicação aberta sobre experiências digitais, estabelecendo diálogos regulares sem julgamentos ou punições excessivas, criam ambientes seguros onde jovens se sentem confortáveis para compartilhar situações problemáticas. A construção participativa de regras sobre uso de dispositivos, horários de conexão e tipos de conteúdo adequados demonstra maior efetividade que controles autoritários.


 Nossa atuação profissional deve priorizar o fortalecimento das competências parentais para lidar com questões digitais, desmistificando a tecnologia e enfatizando que a supervisão efetiva depende fundamentalmente de vínculos afetivos sólidos e comunicação estabelecida, não de expertise tecnológica. Capacitar familiares sobre recursos básicos de segurança, aplicativos de controle parental, orientar sobre sinais de risco e desenvolver estratégias de comunicação efetiva constituem intervenções fundamentais em nossa prática contemporânea.


 A articulação intersetorial revela-se essencial para garantir proteção integral no ambiente digital. Escolas, Conselhos Tutelares, Ministério Público, delegacias especializadas e organizações da sociedade civil devem atuar coordenadamente, estabelecendo protocolos claros de identificação e encaminhamento de situações de risco. A capacitação de professores e gestores educacionais torna-se fundamental, considerando que muitas situações problemáticas se manifestam inicialmente no ambiente escolar através de mudanças comportamentais ou relatos espontâneos de estudantes.


 Programas socioeducativos focados em cidadania digital podem desenvolver competências críticas para navegação segura, incluindo reconhecimento de informações falsas, gestão de privacidade online e estratégias pacíficas de resolução de conflitos virtuais. A metodologia participativa, reconhecendo crianças e adolescentes como protagonistas de sua própria proteção, demonstra particular efetividade quando combinada com experiências de educação entre pares.


 A velocidade das transformações tecnológicas demanda capacitação profissional continuada, desenvolvendo não apenas competências técnicas, mas principalmente compreensão crítica das implicações sociais, psicológicas e jurídicas das questões digitais. Devemos nos posicionar facilitando diálogos construtivos sobre tecnologia nas famílias atendidas, aplicando nossa expertise em atendimento social à compreensão das interações virtuais contemporâneas.


 Finalmente, é fundamental que trabalhemos em prol de políticas públicas que garantam acesso democrático a tecnologias seguras e educação digital de qualidade. A proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual constitui responsabilidade coletiva que demanda engajamento profissional qualificado e compromisso ético com a garantia de direitos fundamentais. Nossa missão profissional na era digital exige que haja uma expansão continua dos nossos conhecimentos e competências, mantendo sempre como norte a proteção integral das crianças e adolescentes.


GISELE GONÇALVES LEAL SOUZA


 Assistente Social com mais de 9 anos de experiência, sendo 5 anos no serviço público e 4 anos na iniciativa privada. Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), com pós-graduação em Gestão Pública e atualmente cursando graduação em Inteligência Artificial e Machine Learning pelo Centro Universitário de Maringá, além de MBA em Gestão Pública com ênfase em Cidades Inteligentes em andamento. Ex-servidora pública efetiva, desenvolveu expertise através da atuação direta em saúde mental no SUS e no âmbito da consultoria e assessoria no SUAS. Atualmente atua como Supervisora Acadêmica da Graduação de Serviço Social na Universidade Anhanguera e trabalha na área de assessoria da política de assistência social em uma empresa de tecnologia. Expertise na produção de documentos técnicos e dedica-se ao estudo pioneiro da aplicação da Inteligência Artificial no campo do Serviço Social. Autora do livro "Inteligência Artificial e suas aplicações no Serviço Social", tem como área de interesse principal a IA para o bem-estar social, pesquisando formas de como a tecnologia está transformando e pode potencializar a prática profissional do assistente social na promoção de direitos e justiça social.